Colocar painel solar em casa continua reduzindo a conta de luz. O que mudou é quanto ela reduz — e essa redução vem encolhendo todo ano, por determinação legal.
O erro mais caro é comparar a proposta de hoje com a economia que o vizinho teve em 2021. São regras diferentes. Desde 2023, um cronograma legal aumenta ano a ano a parcela da tarifa de rede cobrada sobre a energia injetada e depois compensada. Em 2026 esse percentual chegou a 60%, e ainda sobe até 2028.
Abaixo, a compensação de créditos, o cronograma até 2029, a taxa mínima da qual ninguém escapa, o passo a passo para calcular o próprio retorno e o que exigir por escrito antes de assinar.
Como funciona a compensação de créditos
A regra está na Lei nº 14.300, de 6 de janeiro de 2022, publicada em 7 de janeiro de 2022, e na REN ANEEL nº 1.000/2021, alterada pela REN nº 1.059/2023. O sistema residencial comum não guarda energia: gera de dia, a casa consome o que consegue e o excedente vai para a rede.
Esse excedente vira crédito em kWh, que abate o consumo dos meses seguintes. Dois detalhes decidem o resultado financeiro:
- Os créditos expiram em 60 meses após o faturamento em que foram gerados (art. 13 da Lei nº 14.300/2022). Crédito não vira dinheiro e não é indenizado.
- A compensação vale por unidade consumidora e por distribuidora. Crédito gerado numa concessionária não abate conta de outra.
O fio B e o cronograma até 2029
A tarifa de distribuição (TUSD) tem uma parte chamada fio B, que remunera a rede física: postes, cabos, transformadores. É ela que passou a ser cobrada sobre a energia compensada.
Antes da lei, quem gerava compensava quase tudo e pagava muito pouco pelos fios. O artigo 27 encerrou esse desenho para os sistemas novos com um cronograma que não depende de reajuste nem de decisão da distribuidora.
| Ano | Percentual do fio B cobrado sobre a energia compensada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% (regra vigente) |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | Regras do art. 17, a serem detalhadas pela ANEEL |
Quem instalou antes de 2023 tem regra própria
O artigo 26 criou um direito adquirido. Quem já tinha o sistema na data de publicação da lei, ou protocolou o pedido de acesso em até 12 meses — ou seja, até 7 de janeiro de 2023 —, fica fora das novas regras de faturamento (art. 17) até 31 de dezembro de 2045.
Esses sistemas seguem nas regras antigas. É por isso que dois vizinhos com placas idênticas podem ter contas muito diferentes.
Ao comprar imóvel com placas, peça a data do parecer de acesso. Ela diz em qual regime o sistema está, e isso é parte do valor do negócio.
A taxa mínima continua na conta mesmo gerando
Gerar energia não zera a fatura. Existe o custo de disponibilidade, mínimo cobrado pelo simples fato de o imóvel estar ligado à rede. Pela ANEEL, o mínimo faturado na baixa tensão (Grupo B) equivale a:
- 30 kWh na ligação monofásica;
- 50 kWh na ligação bifásica;
- 100 kWh na ligação trifásica.
Somem-se iluminação pública e tributos. Quem ouvir que a conta “vai a zero” está ouvindo argumento de venda, não regra da ANEEL.
Por que a economia cai quando o consumo é baixo
A economia é proporcional ao que se deixa de comprar da distribuidora. Se o consumo já é pequeno, sobra pouco a economizar.
Numa casa que consome perto do mínimo faturável, boa parte da conta é feita de itens que a geração própria não elimina: disponibilidade, iluminação pública, ICMS, PIS e Cofins.
Há ainda quem já pague menos por outro motivo. Famílias com desconto social têm retorno mais longo, porque a base de economia é menor.
O subsídio que aparece na conta de quem não tem placa
Este é o lado que quase nunca é escrito. A diferença entre o que o gerador deixa de pagar e o custo real da rede não some: parte é bancada pela CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), encargo pago por todos.
No boletim InfoTarifas de junho de 2026, a ANEEL projetou alta média de 8,6% nas tarifas do ano, acima do IPCA estimado. Dentro dessa projeção, os encargos setoriais respondem por 1,4 ponto percentual, puxados pelo avanço dos subsídios da CDE — a geração distribuída é um dos itens dessa rubrica.
Não é motivo para demonizar quem instalou placa: o incentivo veio de política pública e foi seguido à risca. O cronograma do fio B existe justamente para reduzir esse repasse cruzado com o tempo.
Como calcular o payback do seu caso
Não existe payback nacional. Ele muda com a tarifa, o consumo, a irradiação, o tipo de ligação e o ano de entrada no cronograma. Número redondo em anúncio é estimativa comercial, não dado oficial.
| Passo | O que fazer | Onde achar o dado |
|---|---|---|
| 1 | Somar o consumo dos últimos 12 meses e dividir por 12 | Histórico impresso na conta de luz |
| 2 | Separar o que é energia do que é rede, encargos e tributos | Fatura detalhada e tabela de tarifas |
| 3 | Descontar da economia o fio B do ano (60% em 2026, 75% em 2027) | Art. 27 da Lei nº 14.300/2022 |
| 4 | Manter na conta o custo de disponibilidade e a iluminação pública | Padrão de entrada e fatura |
| 5 | Somar ao investimento projeto, telhado, troca de inversor e limpeza | Orçamentos por escrito |
| 6 | Dividir o investimento total pela economia anual líquida | Resultado dos passos anteriores |
Refaça o passo 3 com o percentual de 2028. Projeto que só fecha na conta de 2026 não fecha.
Autoconsumo remoto e geração compartilhada
Nem sempre a geração fica no telhado de quem consome. A ANEEL reconhece quatro arranjos: autoconsumo local, autoconsumo remoto, empreendimento com múltiplas unidades e geração compartilhada.
No autoconsumo remoto, o titular gera num endereço e compensa em outro, desde que ambos estejam na mesma distribuidora e sob o mesmo CPF ou CNPJ. É a saída para apartamento ou telhado sombreado.
Na geração compartilhada, um grupo se reúne em consórcio ou cooperativa e divide a energia por percentuais em contrato. Em prédio, esbarra em assembleia e rateio, tema vizinho ao de como a taxa de condomínio é dividida.
Financiamento de placa e o custo real da parcela
Boa parte das vendas é financiada em 60 meses ou mais, e a comparação correta não é “parcela menor que a conta de luz”. Quem ainda paga o imóvel, inclusive pelas faixas de renda do Minha Casa Minha Vida, fica com duas prestações longas ao mesmo tempo.
Compare o Custo Efetivo Total (CET) com a economia líquida mensal já descontada do fio B. O CET deve ser informado antes da contratação e reúne juros, tarifas, seguros e tributos — é o número que permite comparar bancos, mesma lógica de quem avalia portabilidade de crédito comparando taxas.
Peça a simulação com o total pago ao fim do contrato, não só a parcela. Financiamento longo empurra o payback para frente, porque parte da economia vira juro. A análise de crédito é individual.
O que exigir por escrito antes de assinar
A homologação é a etapa que trava projetos. O sistema só injeta energia depois do parecer de acesso e da troca do medidor pela distribuidora — prazo que não está nas mãos do vendedor.
No contrato, exija resposta para:
- Quem protocola o pedido de acesso e quem paga a adequação do padrão de entrada;
- Prazo de homologação e o que acontece se ele estourar;
- Garantia do inversor e dos módulos, separadas, com prazo em anos e quem executa;
- Quem faz manutenção e limpeza, com que frequência e a que custo;
- Se a garantia depende de a empresa continuar aberta — garantia só do instalador vale menos;
- Se o telhado suporta a carga e quem responde por infiltração. Com financiamento imobiliário, avise a seguradora: a obra pode afetar a cobertura de danos físicos ao imóvel.
Bateria: por que o assunto entrou na pauta em 2026
Com o fio B em 60%, o crédito injetado vale menos que o kWh consumido na hora. O incentivo muda: compensa mais usar a energia no momento da geração do que mandá-la para a rede.
É esse cálculo que empurrou o mercado para sistemas híbridos, com armazenamento. Pela ABSOLAR, o impacto do cronograma é maior nos projetos de alta injeção, e a queda de preço das baterias estimula a solução híbrida.
Ainda assim, bateria é investimento adicional, com vida útil própria e troca programada. Não é acessório: é um segundo projeto dentro do primeiro.
As projeções para 2026 não fecham entre si
Quem pesquisa encontra previsões opostas, ambas de entidades do setor.
A ABSOLAR projetou retração de 7% na expansão solar em 2026, citando entraves regulatórios, dificuldade de conexão e falta de compensação pelos cortes de geração. A ABGD projetou crescimento de 15% na potência instalada da geração distribuída no mesmo ano, apostando em queda de custos, baterias e modelos coletivos.
Nenhuma das duas é verdade oficial: são recortes diferentes do mercado. Para quem decide sobre a própria casa, o dado que importa é a fatura do imóvel, não a projeção do setor. Some-se que a reforma do setor elétrico, na Lei nº 15.269, de 24 de novembro de 2025, não alterou o cronograma do art. 27, mas mexe no custeio dos subsídios a partir de 2027 e ainda depende de regulamentação.
Onde confirmar as informações
Este é um conteúdo informativo e independente. Regras, tarifas e valores mudam — confirme antes de decidir:
- Planalto — Lei nº 14.300/2022, marco legal da geração distribuída
- ANEEL — micro e minigeração distribuída, regras e modalidades
- ANEEL — tarifas, bandeiras e boletim InfoTarifas
- Consumidor.gov.br — reclamações contra distribuidoras
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