O Crédito do Trabalhador é a modalidade de empréstimo consignado voltada a quem tem carteira assinada, com desconto da parcela diretamente na folha de pagamento. Desde 26 de junho de 2026, o programa passou a aceitar o saldo do FGTS e as verbas rescisórias como garantia da operação — e essa mudança é o que permitiu limitar a taxa de juros a 1,99% ao mês nos contratos garantidos.
A lógica é a de qualquer operação de crédito: quanto menor o risco assumido pela instituição financeira, menor a taxa cobrada do tomador. Ao oferecer uma garantia real, o trabalhador reduz a exposição do banco e, em troca, acessa um custo efetivo total bem abaixo do praticado no crédito pessoal sem garantia, no rotativo do cartão e no cheque especial.
Abaixo, como a garantia funciona na prática, quanto do salário pode ser comprometido, o que muda entre contratar pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital ou pelo canal do banco, e o que acontece com o saldo devedor em caso de demissão.
O que é o Crédito do Trabalhador
É o consignado do setor privado, operado por instituições financeiras habilitadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A contratação é feita de forma digital e a parcela é descontada em folha, sem depender de boleto ou débito automático.
O objetivo declarado do programa é permitir a substituição de crédito caro por crédito barato. Na prática, é uma operação de troca de dívida: o trabalhador quita o saldo devedor do rotativo do cartão, do cheque especial, do carnê da financeira ou de um CDC contratado a taxas altas, e passa a pagar uma parcela consignada com juros substancialmente menores.
O Brasil tem mais de 47 milhões de trabalhadores com carteira assinada, e a expectativa oficial é incluir cerca de 25 milhões de pessoas no consignado privado ao longo de quatro anos.
Quem pode contratar
A modalidade alcança um público mais amplo do que o consignado tradicional. Podem contratar:
- Trabalhadores celetistas em geral
- Empregados domésticos
- Trabalhadores rurais
- Empregados contratados por MEI
- Diretores não empregados com direito ao FGTS
O requisito comum é o vínculo formal com recolhimento de FGTS. É esse recolhimento que dá lastro à garantia e sustenta a taxa reduzida.
Margem consignável: quanto do salário pode ser comprometido
A margem consignável é o limite máximo da renda que pode ser comprometido com o desconto em folha. No consignado CLT, esse limite é de 35% da remuneração.
O cálculo parte do salário líquido, já descontados INSS e Imposto de Renda. Um trabalhador com líquido de R$ 3.000 tem margem de R$ 1.050 — esse é o teto da parcela, não do valor emprestado. O montante liberado depende dessa parcela combinada ao prazo e à taxa contratada.
Dois pontos costumam ser mal compreendidos:
- A margem é compartilhada. Se já existe outro contrato consignado ativo ou um cartão consignado averbado, o espaço disponível é o que sobra dos 35%.
- A margem acompanha a renda. Variações de remuneração alteram o valor disponível para novos contratos, mas não recalculam automaticamente parcelas já averbadas.
A garantia com FGTS: o que mudou em junho de 2026
Até então, o consignado CLT operava apenas com o desconto em folha como mecanismo de pagamento. O problema estrutural era evidente: encerrado o vínculo, encerra-se o desconto. Sem folha, não há parcela — e esse risco de descontinuidade era precificado na taxa.
A partir de 26 de junho de 2026, o trabalhador pode oferecer três garantias, de forma facultativa, acionáveis apenas em caso de demissão sem justa causa.

Até 10% do saldo do FGTS
Aplica-se a quem aderiu ao saque-rescisão, a modalidade padrão em que o trabalhador movimenta o saldo integral na demissão sem justa causa. Nesse arranjo, até 10% do saldo da conta vinculada pode ser comprometido como garantia. Quem optou pelo saque-aniversário tem outra dinâmica de disponibilidade e precisa verificar a condição junto à instituição.
100% da multa rescisória
É a multa de 40% sobre o saldo do FGTS, devida pelo empregador na demissão sem justa causa. A totalidade desse valor pode ser vinculada à operação — é a garantia de maior peso das três, porque o montante costuma ser expressivo em contratos mais longos.
Até 35% das verbas rescisórias
Alcança o saldo de salário, as férias proporcionais acrescidas do terço constitucional e o 13º proporcional. O limite de comprometimento é de 35% desse conjunto.
Por que a garantia derruba a taxa de juros
A taxa cobrada em qualquer operação de crédito é a soma de custo de captação, custos operacionais, tributos, margem da instituição e — o componente decisivo — prêmio de risco. É esse último item que a garantia comprime.
Com FGTS e verbas rescisórias vinculadas, a instituição tem uma fonte de recuperação previsível caso o desconto em folha seja interrompido. O prêmio de risco cai, e o teto de 1,99% ao mês se torna viável para as operações garantidas.
Para dimensionar: uma taxa de 1,99% ao mês equivale a aproximadamente 26,7% ao ano no regime composto. É um patamar muito distante do praticado no rotativo do cartão de crédito e no cheque especial, que operam em faixas de dois dígitos mensais. É exatamente aí que está o ganho da substituição de dívida.
CTPS Digital ou app do banco: a diferença que muda o valor liberado
Este é o ponto mais relevante da regra e o menos comentado. O canal de contratação altera a proporção entre garantia oferecida e crédito liberado.
- Pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital: a proposta do banco deve corresponder a 100% das garantias oferecidas. Ou seja, o valor do empréstimo equivale ao total garantido.
- Pelos canais próprios da instituição financeira: a proposta corresponde a 50% das garantias. Para o mesmo conjunto de garantias, o crédito liberado é metade.
A consequência prática é direta: a mesma garantia rende o dobro de crédito quando a operação é originada pela CTPS Digital. Além disso, o aplicativo concentra as propostas de diferentes bancos em um único ambiente, o que permite comparar taxa, prazo e Custo Efetivo Total antes de aceitar qualquer condição.
O que acontece com o contrato em caso de demissão
Encerrado o vínculo sem justa causa, o desconto em folha deixa de existir e as garantias vinculadas são acionadas para amortizar o saldo devedor. Três desdobramentos:
- As garantias abatem o saldo devedor na ordem e nos limites contratados.
- Se as garantias não cobrirem o total, o saldo remanescente é transferido para o próximo contrato de trabalho formal, com atualização de valores, voltando a ser descontado em folha.
- O que sobrar do FGTS após a amortização fica disponível para saque normal pelo trabalhador.
Vale registrar o que isso significa: a dívida não é extinta pela demissão, mas também não migra para cobrança comum. Ela permanece dentro do sistema consignado, aguardando a próxima averbação.
Portabilidade: como comparar o custo entre bancos
A portabilidade de crédito permite transferir um contrato ativo para outra instituição que ofereça condições melhores. É um direito do tomador e não pode ser recusada pelo banco de origem.
Na comparação, o indicador correto não é a taxa nominal, e sim o Custo Efetivo Total (CET). O CET incorpora juros, tributos, tarifas e eventuais seguros — é o único número que expressa o custo real da operação. Dois contratos com taxa mensal idêntica podem ter CET bem diferentes.
Ao avaliar uma proposta de portabilidade, confira sempre estes quatro elementos em conjunto:
- CET anual, não apenas a taxa mensal
- Saldo devedor atualizado no contrato de origem
- Prazo remanescente — prazo maior reduz a parcela e aumenta o total pago
- Valor total a pagar até o fim do contrato
Antes de contratar: o que conferir na proposta
O consignado é crédito barato em termos comparativos, mas continua sendo dívida com comprometimento de renda por vários meses. Antes de assinar:
- Confirme se a instituição é habilitada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A lista oficial está disponível nos canais do órgão.
- Verifique o CET no contrato, e não apenas na simulação apresentada na tela.
- Avalie se a garantia é necessária. O uso do FGTS e das verbas rescisórias é facultativo — ele reduz a taxa, mas compromete uma reserva que existe justamente para o momento da demissão.
- Cheque a margem já utilizada antes de simular, para saber o espaço real disponível.
- Compare pelo menos três propostas. Pela CTPS Digital, isso é feito no mesmo ambiente, sem custo.
Um contrato consignado bem estruturado troca dívida cara por dívida barata e reduz o comprometimento mensal da renda. Um contrato mal avaliado apenas alonga o prazo e aumenta o valor total pago. A diferença entre os dois cenários está inteiramente na leitura do CET e do prazo.
Onde confirmar as informações
Este é um conteúdo informativo e independente. Regras de crédito são atualizadas com frequência — confirme as condições vigentes nos canais oficiais:
- Ministério do Trabalho e Emprego — Crédito do Trabalhador
- FGTS — informações oficiais
- Banco Central do Brasil
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